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Uivo – Os velhos morrem no Outono

By 17 Outubro, 2016 No Comments

A nossa próxima exposição, a inaugurar no dia 29 de Outubro, será a primeira a solo de Gonçalo Fialho, mais conhecido como Uivo. Aqui podem ler uma pequena entrevista que lhe fizemos.

Circus Network: Quando começaste a pintar? 
Uivo: Nunca tive jeito mas sempre soube brincar sozinho e criar distrações. No sétimo ano, quando devia ter uns 12 anos criei a minha primeira página na internet. Era um blog de crítica política e da actualidade, em que eu escrevia os meus textos e normalmente ilustrava o artigo, uma salganhada que agora tem piada. Chamava-se Não Volto Atrás, porque eu não voltava atrás com a crítica…era assim tão pretensioso. Eu já desenhava antes, sempre fiz desenhos do meu avô a dar milho aos patos. Mas foi a partir do blog que me viciei. Nessa altura ganhei o blog do mês na E.B.2,3 e fiquei todo vaidoso. O pessoal começou a pedir desenhos na turma e o resto aconteceu como acontece a todos.
No final do secundário nasceu o Uivo e a universidade foi a melhor incubadora que podia ter tido.

13521853_1136200866437979_5486734426088738260_nCN: Como percepcionas o panorama da ilustração a nível nacional? 
U: Portugal já não é um lugar que reproduz a ilustração que se faz lá fora, essas barreiras já não existem. O solo nunca esteve tão fértil, e o pessoal tenta seguir o seu caminho sem se agarrar a influências externas, tal como acontece no design, há uma vaga de coisas novas, agora estamos na posição de também influenciar outros. Mas é um movimento em progresso e que já vem de há muito, muitos se sacrificaram pelo que se faz agora. É engraçado como já consegues traçar gerações e as suas próprias lutas. Nos 90 até aos 2000 tiveste muitos jornais, à conta de grandes directores de arte, a apostar na ilustração. E por consequência nasceram grandes ilustradores, mestres que estão aí ainda hoje e que fizeram muito pelo reconhecimento que a ilustração tem hoje em Portugal. Criaram alguns caminhos que não existiam. As coisas abrandaram e depois vem a street art e influencía em grande o panorama português. Começaram a nascer ilustradores em todo o lado, que trouxeram toda uma atmosfera cool para a cena e influenciaram muita gente. A nova geração é um sumo de tudo, somos influenciados por tudo, não só pela ilustração. Temos os caminhos agora desbloqueados, usufruímos disso, de certa forma está mais fácil. No entanto também há mais gente, porque apesar de alguns ficarem pelo caminho ainda continuam aí todas as gerações. São todos os cães a um osso. Acho que o pessoal agora é muito mais diversificado, faz se muita coisa diferente e os mais novos não têm tido medo de experimentar. Há muito pessoal bom por aí e a fazer coisas com uma identidade muito própria. Acho que o problema é que agora ao contrário dos 90 não há ninguém que agarre nesta massa criativa e os coloque a produzir. Os projectos, as exposições, os grandes eventos são muito mais produto do próprio empreendedorismo dos ilustradores do que factores externos. Restam-nos as galerias (poucas para tantos) e alguns trabalhos não remunerados ou em troca de agrados.

CN: O que te levou a seguir o caminho da ilustração? 
U: Desde sempre quero ser criativo. Como em criança não sabia que existiam ilustradores e designers dizia que cria ser inventor ou cientista maluco (ou toureiro, foi uma fase). Logo na E.B.2,3 decidi que ia ser designer, quando comecei a dar uns toques no corel draw. Do design à ilustração é um salto. São áreas que se comunicam. Também é uma vontade que preciso de extrair, acho que não quero tanto ilustrar, quero é contar histórias. Como ilustro melhor que escrevo, ilustro. Se um dia conseguir escrever melhor, deixo de ilustrar.

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CN: Porque optaste por este tipo de ilustração? 
U: As referências e a falta de jeito para o desenho trouxeram me até aqui, se desenhasse melhor talvez fizesse menos bonecos, acho que no início é um bocado assim. Agora claro que se tornou no meu estilo e já não forço a mão ou as referências. Admito que também fui de encontro ao que era mais fácil e rápido para mim, é darwin.

CN: Que pretendes transmitir com o teu trabalho? 
U: Só quero mesmo contar as histórias que invento. Como tenho dificuldade em fazer sempre o mesmo vou alterando o meu estilo em alguns sub estilos e com isso mudam tambem as temáticas. O meu problema é acabar sempre a desenhar homens nus, não sei o que se passa. Sempre desejei alcançar o patamar de ilustrador cómico. No entanto estou a seguir em direção a um penhasco de drama e coisas sombrias. Gostava de conseguir transmitir alguma individualidade e que as pessoas reconhecem o meu trabalho como meu.

12068672_1012597412131659_5820749658282825405_oCN: Quais são as tuas influências artísticas? Em que te inspiras para produzir os teus trabalhos?
U: Antigamente inspirava-me muito em ilustradores, como todos fazem no início. Acho que finalmente (e muito conquistado com esta exposição) estou a conseguir inspirar me em coisas fora do meio da ilustração. É o método mais saudável. Agora a influência visual vem da cidade, dos tempos em que vivi nas Caldas e agora do meu espanto pela vida de Lisboa. Mas as histórias continuam a vir do campo, da minha aldeia e das serras. Das conversas dos velhos, das cusquices e teorias antiquadas que surgem por aqui. Os ares do campo são um adubo especial para criar teses doidas sobre a vida. A influência vem do campo e da cidade, e das suas diferenças.

CN: Sendo a primeira exposição a solo, e sendo realizada no Porto, quais são as tuas expectativas? 
U: Estou ás escuras. Já organizei muitas exposições, sempre para outros. É diferente quando a exposição é tua. Eu adoro o porto, tenho um grande fascínio pelo ambiente da cidade. Por si só parece uma escola de criatividade. Pelo menos é a atmosfera que transmite aos gringos. Por isso estou bastante ansioso para descobrir como me vão aceitar.

CN: Como foi planear esta exposição?
U: Uma verdadeira experiência à tuga, 50% do tempo a planear e a estruturar, 40% a dizer que começo a pintar amanhã e 10% a pintar com medo de não acabar a tempo. Mas há já uns 3 anos que exploro temáticas do sobrenatural, do misticismo e da religião. Escrevi muito sobre isso, e pintei alguns murais com esse tema. E há um ano comecei a trabalhar nesta exposição. É o melhor momento para fazer isto e a melhor forma de me estrear a solo. Esta exposição carrega muito de mim.

CN: O que te levou a escolher este “velho” e este texto como base para realizar a primeira exposição a solo?
U: São as histórias que carregam o meu vocabulário criativo. E senti que era o momento certo para contar a história deste velho.

CN: E para o futuro, quais são os teus planos?
U: Tenho outros textos guardados. Na ilustração não tenho tido objectivos muito concretos. Estou sempre a fazer planos de cabeça e a sonhar alto mas, na ilustração, já deixei de traçar estratagemas ultra complexos para alcançar um fim. Tenho também outros projectos que quero ver crescer como a Implosão. A implosão é um projecto de curadoria de ilustração, que iniciei na universidade. Gostava de concluir o ciclo de exposições da implosão em Lisboa. Tenho muitas ambições no design gráfico, é a minha profissão. A ilustração acaba por andar sempre a par com as outras coisas que faço. É a minha vertente mais pessoal, apesar de ser a única que não assino com o meu nome. É fixe manter esse descomprometimento. Gostava de um dia juntar tudo o que faço numa coisa só e não ter que dividir as coisas em várias gavetas. Quero aprender a desenhar roupa, estou farto de desenhar mamilos. O meu plano é um dia matar o Uivo.

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